4. BRASIL 15.5.13

1. JABUTICABA POLTICA
2. O MINISTRO DA PESCA E SUA ONG PESQUEIRA
3. OS MISTRIOS DE PC FARIAS
4. RELATRIO FINAL DO BC MOSTRA FRAUDES E GRAMPOS DE UM BANCO QUE ADORAVA AJUDAR POLTICOS

1. JABUTICABA POLTICA
Um jogo de interesses produziu mais um daqueles absurdos que s acontecem no Brasil: Afif Domingos , ao mesmo tempo, vice-governador de oposio e ministro governista
Alan Rodrigues

 comum relacionar lances inusitados da poltica nacional  jabuticaba, fruta silvestre que s existe no Brasil. Os exemplos capazes de ilustrar essa associao so fartos. Recentemente, um deputado homofbico e racista elegeu-se presidente da Comisso de Direitos Humanos, parlamentares condenados pelo mensalo no STF passaram a ocupar assentos na Comisso de Constituio e Justia da Cmara e um senador ruralista foi escolhido para dirigir a Comisso de Meio Ambiente do Senado. Na ltima semana, a poltica nacional produziu mais uma jabuticaba. De olho nas alianas e no tempo de televiso para as eleies presidenciais de 2014, a presidenta Dilma Rousseff nomeou para o seu ministrio um vice-governador da oposio: Guilherme Afif Domingos (PSD), vice do tucano Geraldo Alckmin, em So Paulo. Na quinta-feira 9, Afif assumiu a Secretaria da Micro e Pequena Empresa, cargo com status de ministrio. Trata-se de um caso sem precedentes na poltica. Ao virar ministro de Dilma, Afif servir ao mesmo tempo a governos do PSDB e do PT, atendendo a interesses do PSD, do ex-prefeito de So Paulo Gilberto Kassab.  uma anomalia jurdica, tica e moral, acusa o deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL), que protocolou no Ministrio Pblico do Estado de So Paulo um pedido de cassao do mandato de Afif. A jurisprudncia criada  perigosa e nociva para a poltica brasileira e s contribui para a desordem geral, mas o vice-governador, um dos beneficirios desse teatro do absurdo, preferiu contemporizar: Eu sou um servidor no de partido, mas de governo. Dilma, por sua vez, justificou: Ele tem tido papel relevante em todos os processos que, nos ltimos anos, resultaram no estmulo e na valorizao das micro e pequenas empresas no Pas.

APRENDEU RPIDO - H trs anos, o novo ministro da Micro e Pequena Empresa, Afif Domingos, dizia que Dilma no tinha biografia para presidir o Pas

Normalmente, no Brasil, uma situao sem p nem cabea como essa ocorre quando as pretenses se sobrepem s convices.  o caso da nomeao de Afif para o ministrio de Dilma, por trs da qual existe um grande jogo de interesses.  verdade que o vice-governador de So Paulo sempre pautou sua histria poltica pela defesa do empreendedorismo, seja no PDS, quando estava ao lado dos militares no incio dos anos 1980, seja na campanha presidencial de 1989, quando era filiado ao Partido Liberal ou, mais recentemente, na condio de secretrio do governo de Jos Serra (PSDB) e vice de Alckmin, em So Paulo. Mas tambm  verdade que Dilma no escolheu Afif prioritariamente em razo de seus predicados empresariais. O objetivo principal foi o de fortalecer o palanque da reeleio. Com a quarta maior bancada na Cmara, o apoio da legenda de Afif e Kassab ao PT acrescentar  propaganda eleitoral de rdio e televiso de Dilma cerca de 1min50s (em cada bloco de 25 minutos). J Kassab, ao negociar a ida de Afif para o governo Dilma, enxergou uma outra oportunidade poltica. Como ele ambiciona candidatar-se ao governo paulista no prximo ano, acredita que possa ser blindado pelo PT de eventuais ataques. Tambm  uma maneira de Kassab colocar um p no governo federal para poder negociar com mais facilidade, num eventual segundo mandato de Dilma, o aumento do seu quinho na Esplanada dos Ministrios.

AMBIGUIDADE POLTICA - Alckmin elogiou a nomeao de Afif: "Nosso vice-governador haver de fazer ainda mais por So Paulo"

A 16 meses das eleies, a situao hbrida de Afif causou uma anarquia no tabuleiro poltico nacional. Neutralizou at as crticas de setores da oposio  criao do 39 ministrio de Dilma, os quais antes afirmavam servir apenas para acomodar aliados. O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) elogiou a escolha de Dilma. Ele  inteligente, um homem profundamente responsvel, disse Nunes. Constrangido, o governador Geraldo Alckmin (PSDB), que foi criticado pelos prprios tucanos pelo desfecho do caso, preferiu sublinhar os eventuais ganhos do Estado que governa. So Paulo d hoje mais uma contribuio para o Brasil. Nosso vice-governador haver de fazer ainda mais por So Paulo, disse Alckmin.

A polmica da dupla militncia de Afif ainda ser analisada pela Comisso de tica da Presidncia, j que ele resiste em afastar-se do governo do PSDB. O novo ministro da Micro e Pequena Empresa admite at assumir a cadeira de governador, em caso de viagem de Alckmin, e acumular os dois cargos. Sempre na oposio ao PT, Afif chegou a dizer em 2010 que Dilma no tinha biografia poltica para presidir o Pas.  a mesma coisa que entregar um boeing para quem nunca pilotou um teco-teco. Agora, ele diz que tudo no passou de retrica de campanha. Mas ela, agora, sabe pilotar?, questionou um jornalista. Ela aprendeu rpido, respondeu de pronto. Pelo visto, quem aprendeu rpido foi Afif.


2. O MINISTRO DA PESCA E SUA ONG PESQUEIRA
Marcelo Crivella usa a estrutura do ministrio que comanda para desenvolver projeto de criao de peixe em ONG ligada a ele 
Josie Jeronimo

H 13 anos, o bispo e cantor gospel Marcelo Crivella, atualmente ministro da Pesca, decidiu criar no Polgono das Secas um projeto de irrigao. Crivella, ento, lanou um CD, vendeu mais de um milho de cpias e reverteu o dinheiro para a compra de 450 hectares de terras em Irec (BA). Assim nasceu a ONG Fazenda Nova Cana. Do terreno seco, o projeto de irrigao fez brotar frutas e hortalias, usadas para a merenda de mais de 400 crianas que recebem ensino religioso e aulas do currculo regular oferecidas pela obra social. As aes se transformaram no carto de visita de Crivella em suas campanhas polticas. Agora, o ministro da Pesca quer fazer brotar mais do que frutas e verduras da terra seca. Aproveitando o crescimento do mercado da carne de tilpia na Bahia, Crivella prepara a ONG ligada a ele para criar peixes. Sim, a ONG do ministro da Pesca vai produzir peixe. A iniciativa seria um daqueles casos que transitariam apenas no terreno das estranhas e suspeitssimas coincidncias no fosse um detalhe essencial: para alavancar o projeto de criao de tilpias, o ministro usa a estrutura do prprio ministrio. Ou seja, deixou de ser coincidncia para virar uma inequvoca utilizao do cargo pblico em benefcio pessoal.

NO  HISTRIA DE PESCADOR - Organizao ligada ao ministro da Pesca, Marcelo Crivella, conta com ajuda federal para produzir tilpia na Bahia

Segundo apurou ISTO, a ONG Fazenda Nova Cana, ligada a Crivella, conta com o apoio da Superintendncia do Ministrio da Pesca na Bahia e da Secretaria Estadual de Agricultura para dar vida ao criadouro de tilpias. No dia 23 de maro, o ministro se reuniu com representantes da Bahia Pesca, rgo do Estado, para discutir a captao de recursos federais para a instalao de oito tanques-rede na ONG. Com a estrutura inicial, a fazenda poder produzir 13 toneladas por ano, carne de tilpia suficiente para a merenda oferecida na obra social. O maior objetivo, no entanto,  lucrar com o empreendimento a partir da produo de 200 toneladas de tilpia por ano, abastecendo assim o mercado consumidor baiano. A ampliao do consumo de tilpia  o carro-chefe da gesto de Crivella no ministrio. Ele tem como meta baratear a carne do peixe de origem africana para competir com o frango.

A superintendncia do Ministrio da Pesca na Bahia acompanha com cuidado especial os preparativos para a produo de tilpia na fazenda fundada por Crivella. O projeto recebeu estudo de viabilidade em fevereiro e a prpria superintendente do Ministrio da Pesca na Bahia, Slvia Cerqueira, visitou a Fazenda Nova Cana para dar aval oficial para o incio da criao. Procurada por ISTO, Slvia  que tambm  segunda suplente de senadora pelo PRB, partido de Crivella  no quis comentar o projeto. So muitos empreendimentos para ter na ponta da lngua.  preciso fazer uma consulta, desconversou. J o Ministrio da Pesca disse que no foi fechado nenhum convnio com a Fazenda Nova Cana. Qualquer localidade com gua de boa qualidade pode criar tilpia, afirmou.

Tcnicos que atuaram no programa federal Territrios da Cidadania, em Irec, questionam a viabilidade de um empreendimento hdrico na regio, que sofre com a seca. Municpios que ficam s margens do rio So Francisco j tentaram produzir tilpias sem sucesso. Associaes de pescadores e criadores das cidades banhadas pelo So Francisco, porm, temem que Irec se torne uma potncia produtora e passe a competir com elas. Apesar de a cidade que abriga a fazenda de Crivella s receber gua do rio por meio de adutora, os pescadores sabem que o apoio do ministrio tem mais peso para fazer o empreendimento dar certo. 


3. OS MISTRIOS DE PC FARIAS
Reportagens de ISTO evitaram que a morte do ex-tesoureiro de Collor fosse arquivada como crime passional, mas a falta de investigaes e um julgamento realizado 17 anos depois fizeram com que os detalhes da histria de corrupo no se tornassem pblicos
por Mrio Simas Filho

A convico de que estvamos diante de uma farsa comeou a se formar no meio da tarde do domingo 23 de junho de 1996. Do lado de l do muro do grande e avarandado sobrado de madeira erguido no meio de um bem cuidado gramado, na praia de Guaxuma, litoral norte de Macei, a cpula do governo de Alagoas e policiais civis e militares caminhavam de um lado para o outro. Do lado de c, dezenas de jornalistas e curiosos se aglomeravam em busca de alguma informao. At ento, tudo que se sabia era que no interior daquela casa estavam os corpos do empresrio Paulo Csar Farias, o PC, e de sua namorada, Suzana Marcolino. Ela, uma mulher de 28 anos, disposta a apostar em um romance que lhe trouxesse conforto material. Ele, o ex-tesoureiro do presidente Fernando Collor. Um homem que vivia cercado de seguranas, conhecedor de todos os mensales da poca. No submundo da poltica, sabia exatamente quem dera dinheiro para quem e a troco de qu. E naquela semana iria depor em uma CPI na qual ameaava entregar os nomes dos empresrios que alimentaram o propinoduto que levou ao impeachment de Collor.

O DESMANCHE DE UMA FARSA - O cenrio do crime foi montado para tentar validar a tese de homicdio seguido de suicdio. Mas j na edio de 3 de julho de 1996 ISTO mostrava a armao

Exatamente s 16 horas, o ento secretrio da Justia, Rubens Quintela, e o delegado Ccero Torres se aproximaram do muro e disseram sem nenhum constrangimento: Houve um crime passional. Paulo Csar foi assassinado por Suzana, que se matou em seguida. Os corpos ainda estavam sobre a cama onde foram baleados. Nenhuma percia fora feita. Nenhuma testemunha ouvida. Como poderia, ento, a polcia ter uma concluso? Poucos minutos depois, a percepo de que estvamos realmente presenciando uma armao se tornou ainda mais forte. O ento deputado Augusto Farias, irmo de PC, falando em nome da famlia, se disse satisfeito com as concluses do delegado. O roteiro para fazer perpetuar a farsa estava pronto.

Durante a semana, a imprensa em geral se agarrou  tese defendida pela polcia e pela famlia. Nenhuma outra linha de investigao foi cogitada. A empresria Claudia Dantas foi apresentada como nova namorada de PC e piv da briga que teria levado Suzana ao gesto de desespero. O IML de Alagoas, usando uma faca de cozinha para fazer a necrpsia, endossou a verso. Uma percia feita com gua Perrier (carregada de elementos qumicos) encontrou vestgios de plvora nas mos de Suzana, mas o mesmo exame no foi feito nas mos dos seguranas, que tambm estavam na casa. Ou seja, durante os dias e meses que sucederam o crime, a polcia alagoana, com o apoio da famlia Farias, promoveu uma investigao para encaixar em uma tese. Nem mesmo o fato de no haver impresses digitais na arma foi considerado. Ou seja, Suzana teria disparado contra o prprio peito, limpado o revlver, sumido com o material usado na limpeza e voltado para a cama antes de morrer. Nada mais absurdo, mas a tese do crime passional era bastante confortvel. Um homicdio seguido de suicdio pressupe que o assassino esteja morto. Portanto, no existe nada a ser investigado. As relaes e as traies polticas, as contas de PC no Brasil e no Exterior, os interesses que seriam contrariados. Nada disso seria vasculhado.

Tantos absurdos nos levaram a uma apurao paralela. Na periferia de Macei, localizamos os familiares de Suzana. Tanto os mais prximos quanto os mais distantes. O perfil apurado mostrava o oposto de uma jovem capaz de matar ou de se matar. Os familiares de Suzana, porm, s foram procurados pela polcia depois de darem entrevistas  ISTO. Falamos com trs dos quatro legistas que analisaram os corpos. Atemorizados, dois deles, sob o compromisso de no serem identificados, disseram discordar da verso que mais tarde assinariam. Em um bar prximo  Secretaria de Segurana, encontramos policiais militares que mantiveram contato com os quatro seguranas de PC, tambm PMs, que estavam em Guaxuma na noite do crime. Aos amigos eles haviam negado o suicdio de Suzana. Enfim, no se tratava mais de convico. Era uma certeza: PC, o arquivo vivo da corrupo nacional, no fora vtima de um crime passional. Seus seguranas sabiam disso. Os Farias sabiam disso. Para denunciar a farsa, porm, era preciso apresentar elementos mais consistentes. E, aos poucos, conseguimos reunir esses elementos.

Com base em 13 fotografias tiradas durante a necrpsia e em outras tantas tiradas do quarto onde os corpos foram encontrados, o legista George Sanguinetti, da Universidade Federal de Alagoas, teve a coragem de enfrentar seus pares. Em julho de 1996, nas pginas de ISTO ele mostrava com o maior rigor tcnico possvel, a quem tivera acesso apenas a algumas fotografias, que a verso apresentada pela polcia, que fizera uma necrpsia com faca de cozinha, no se sustentava. As trajetrias dos tiros no coincidiam com a posio dos corpos, a no ser que Suzana estivesse flutuando quando atirou em PC. Ou seja, a cena do crime havia sido alterada para que a farsa fosse montada. Sanguinetti pagou caro. Chegou a ser afastado de suas funes na universidade e, devido s seguidas ameaas, passou a andar rodeado por sete seguranas. Seu posicionamento, porm, evitou, naquele momento, que o inqurito fosse arquivado. A repercusso da entrevista de Sanguinetti e as reportagens de ISTO chegaram a Braslia. O Ministrio da Justia manifestou interesse em acompanhar o caso e o Ministrio Pblico de Alagoas viu-se obrigado a tomar providncias, o que no estava no roteiro da farsa. Sanguinetti foi convidado a oferecer um laudo tcnico paralelo ao produzido pelo IML e, para isso, teve acesso a todo o material disponvel. Terminou o criterioso estudo convicto de que houvera um duplo homicdio. A Justia alagoana, ento, convocou o legista Fortunato Badan Palhares, da Unicamp, para conduzir novos estudos. Enfim, parecia que a armao comeava a ruir. Mas, Palhares resolveu endossar a trama e dar  farsa ares tcnicos mais modernos.

Na tarde da sexta-feira 9 de agosto de 1996, no auditrio de um luxuoso hotel na Ponta Verde, em Macei, Palhares apresentou em um telo e com efeitos pirotcnicos o resultado de seus quase 30 dias de trabalho. Ele exumou os corpos de PC e de Suzana, analisou mais de 200 fotografias e com recursos de computador mostrou como Suzana teria matado PC e se matado em seguida. O trabalho escrito tem 600 pginas e pelo menos uma dezena de problemas. O principal deles: ele no mediu a altura de Suzana e, para coloc-la em posio possvel de matar PC e se matar, idealizou em seu computador uma mulher com mais de 1,70 m. Na verdade, seria comprovado mais tarde, Suzana media menos de 1,60 m. Em seu laudo, Pallhares tambm nada menciona sobre o fato de os seguranas de PC no terem ouvido os tiros, embora nos testes realizados a seu pedido todos tivessem ouvido, inclusive a imprensa, colocada do lado de fora do sobrado. O legista de Campinas diz que logo depois de matar PC Suzana se matou, mas as anlises das vsceras do casal mostram que Suzana morreu entre trs e cinco horas depois de Paulo Csar. Essas e outras 18 contradies foram reveladas por ISTO em 14 de agosto de 1996, com base na anlise que peritos de todo o Pas fizeram sobre o trabalho de Badan. A farsa caminhava para seu final.

Diante de tantas contradies, todas elas reveladas por ISTO, ficou impossvel manter uma nica linha de investigao. A justia de Alagoas nomeou uma comisso de especialistas de diversos Estados para elaborar outro laudo. Concluram que houve um duplo homicdio. O Ministrio Pbico denunciou Augusto Farias como mandante do crime e os quatro seguranas como coautores. No STF, Augusto teve o caso arquivado e, na semana passada, 17 anos depois, os seguranas foram levados a jri popular. As reportagens de ISTO foram fundamentais para que a farsa no prosperasse e para que houvesse um julgamento. At o fechamento desta edio no se sabia se havia ou no condenados. A farsa no prosperou,  verdade. Mas no deixa de ser frustrante saber que a banda corrupta da polcia alagoana e a famlia Farias acabaram vencendo. Os mistrios que cercaram a vida de PC Farias tambm dominaram o cenrio de sua morte, e com ele foi-se um arquivo que, se aberto, poderia contar melhor a histria recente do Pas.


4. RELATRIO FINAL DO BC MOSTRA FRAUDES E GRAMPOS DE UM BANCO QUE ADORAVA AJUDAR POLTICOS

O esquema montado pelo dono do banco Cruzeiro do Sul, Luis Octavio Azeredo Indio da Costa, gerou um rombo de R$ 2,2 bi. Documentos relevam que o BC foi grampeado pelos banqueiros, que doaram R$ 12 milhes a polticos. O maior beneficirio foi Jos Serra
Claudio Dantas Sequeira e Josie Jeronimo

O BANQUEIRO E OS CRIMES - Os auditores do BC encontraram indcios de lavagem de dinheiro e evaso de divisas no Cruzeiro do Sul, presidido por Luis Octavio Azeredo Indio da Costa

Na ltima semana, ISTO teve acesso a um relatrio exclusivo da Comisso de Inqurito do Banco Central com novas revelaes sobre a bilionria fraude do Banco Cruzeiro do Sul, que sofreu interveno em junho do ano passado e foi liquidado trs meses depois. O documento de 247 pginas revela que o esquema criminoso montado pelos banqueiros Luis Felippe Indio da Costa e Luis Octavio Azeredo Indio da Costa, pai e filho, foi ainda maior do que a Polcia Federal e o Ministrio Pblico tinham conseguido apurar. O banco contou ainda com a omisso de grandes empresas de consultoria e at com um aparato de arapongagem que garantia acesso a informaes privilegiadas.

Na documentao, obtida com exclusividade por ISTO, pareceres e notas jurdicas revelam a incrvel variedade de crimes cometidos e o tamanho do golpe. Segundo o relatrio, foram feitas 682 mil operaes de emprstimos fictcios  o dobro do que a PF e o Ministrio Pblico imaginavam. Os auditores do BC tambm concluram que houve desvio de recursos por triangulao e encontraram indcios veementes de lavagem de dinheiro e evaso de divisas. O rombo deixado pela gesto fraudulenta dos Indio da Costa, que era estimado em R$ 1,3 bilho, ultrapassa os R$ 2,2 bilhes, conforme o relatrio do BC. Agora, a Polcia Federal quer saber se o dinheiro da fraude teve como destino parasos fiscais, contas de laranjas ou campanhas polticas, como a do tucano Jos Serra. Nas eleies de 2006, 2008 e 2010, o Cruzeiro do Sul doou quase R$ 12 milhes para polticos de diversas legendas. O partido mais beneficiado foi o PSDB. Em 2010, o Cruzeiro do Sul injetou R$ 1,2 milho na campanha do vice de Serra, Indio da Costa, primo do presidente do banco. Tambm doou R$ 1,8 milho diretamente para o diretrio nacional do PSDB, principal cofre da campanha serrista. Outro R$ 1,3 milho foi distribudo para diretrios tucanos empenhados na campanha de Serra. A instituio buscava proteo financiando polticos e mantinha uma boa relao com os tucanos. Ainda no  possvel afirmar, no entanto, que o dinheiro que acabou nas campanhas eleitorais tenha vindo direto das operaes fraudulentas dos banqueiros. Mas a PF j investiga essa possibilidade.

DETIDO - Fundador do banco Cruzeiro do Sul, Luis Felippe Indio da Costa teve priso decretada em novembro de 2012

Uma cpia da papelada do BC chegou no fim da ltima semana  mesa da procuradora da Repblica Karen Louise Kahn e ser anexada  ao penal. O resultado do inqurito levou a Procuradoria-Geral do BC a pedir ingresso como assistente de acusao contra os ex-controladores e ex-administradores do Cruzeiro do Sul. Na petio recebida por Karen, o procurador-geral Isaac Sidney Ferreira classifica de gravssimas as acusaes imputadas aos rus. As irregularidades, de acordo com Ferreira, envolvem a celebrao de cesses de direitos creditrios em condies artificiais, a contabilizao de operaes de crditos inexistentes e o falseamento de demonstraes financeiras. Segundo o procurador-geral do BC, as operaes irregulares (saiba no quadro ao lado como os golpes eram aplicados) so indicativos dos crimes de gesto fraudulenta, induo em erro de scios, depositantes, investidores e o prprio ente fiscalizador e insero de elementos falsos em demonstrativo contbil. No podem ser ignorados os possveis efeitos deletrios das condutas descritas na denncia sobre o funcionamento e a credibilidade do Sistema Financeiro Nacional, escreve Ferreira. O procurador defende a minuciosa apurao dos fatos e punio dos responsveis. No mbito das responsabilidades, o relatrio do BC apontou para a omisso das auditorias KMG e Ernest&Yong, que acompanhavam a sade financeira do Cruzeiro do Sul e no identificaram as irregularidades. A prtica ser investigada agora pelo Ministrio Pblico Federal, que poder determinar se houve erro de procedimento ou conivncia dos auditores. 

A Polcia Federal investigar tambm o monitoramento telefnico de fiscais do BC por parte da cpula do Cruzeiro do Sul. Foi justamente essa suspeita que levou o Ministrio Pblico a pedir, no ano passado, a priso dos banqueiros. Em depoimento ao delegado federal Milton Fornazari e em ofcio encaminhado  procuradora Karen, at agora inditos, o presidente da Comisso de Inqurito do Banco Central, Clovis Vidal Poleto, diz que descobriu o grampo quando examinava os registros telefnicos dos operadores de mesa do Cruzeiro do Sul. Embora essas gravaes de box (como so chamadas pelos fiscais do BC) sejam obrigatrias pela Comisso de Valores Imobilirios (CVM), Poleto encontrou escutas que no tinham relao com as operaes e at telefonemas efetuados pelos membros da Comisso de Inqurito, o que configuraria quebra de sigilo das operaes invetigadas. Poleto considerou o fato como de extrema gravidade, pois as investigaes e a apurao das responsabilidades dos administradores poderiam ficar comprometidas.  PF, Poleto disse ainda que fiscais do Banco Central j vinham sendo monitorados havia algum tempo. Ele analisou gravaes de conversas entre o ento superintendente de operaes e contratos de emprstimos, Horcio Martinho Lima, e o presidente do banco Cruzeiro do Sul, Luis Octavio, em que ambos discutiam o teor de e-mail trocado entre analistas do BC que  poca estavam dentro das instalaes fsicas do banco, realizando fiscalizao em momento anterior  decretao da interveno.

BENEFICIRIOS - O banco fraudulento doou R$ 4 milhes para o PSDB e  campanha de Serra, em  cujo vice era o deputado Indio da Costa ( dir.), primo do presidente do Cruzeiro do Sul

Apesar de ter conseguido a liberao de seus clientes, o advogado Roberto Podval alega que a acusao de grampo no faz sentido. Havia um sistema que gravava automaticamente todas as conversas da mesa telefnica. Ou por erro do sistema ou por procedimento automtico, conversas de fora da mesa estavam gravadas. Mas elas faziam prova contra o prprio banco, afirma. Podval reclama tambm que ainda no teve acesso s informaes do Banco Central e alegou desconhecer totalmente o contedo do relatrio da Comisso de Inqurito do Banco Central. Diante do empenho do BC em investigar o Cruzeiro do Sul, Roberto Podval avalia que seus clientes so alvo de perseguio poltica. No tenho dvida de que esse tratamento diferenciado  por conta das ligaes do banco com a oposio ao governo do PT, alega Podval. O argumento carece de respaldo, uma vez que a Procuradoria do BC atua hoje como assistente de acusao em 55 aes penais. Dessas, 27 so sobre crimes contra o sistema financeiro e 20 envolvem ex-administradores e ex-controladores de bancos liquidados. Antes do Cruzeiro do Sul, o BC tambm entrou no recente caso do PanAmericano.

As relaes polticas dos banqueiros, porm, chamam a ateno, especialmente a partir de 2006. Naquele ano eleitoral, Luis Octavio Indio da Costa, Marcelo Xand e Marcio Serra Dreher  indiciados agora junto a 14 executivos do banco  comemoravam o sucesso da Verax Servios Financeiros, gestora do Cruzeiro do Sul. A empresa, ento com apenas trs anos de vida, atingia R$ 1 bilho em recursos administrados. O foco do negcio eram os chamados Fidcs, mais conhecidos como fundos de recebveis. Os mesmos que foram usados posteriormente para maquiar resultados e engordar dividendos, segundo o BC.

Em 2006, os Indio da Costa injetaram oficialmente R$ 500 mil nas campanhas do DEM (ento PFL), do PSDB e do PPS. O montante de R$ 100 mil ajudou na eleio para deputado federal de Pedro Indio da Costa, primo do banqueiro. Em 2010, quando o esquema de fraudes estava no auge, o banco derramou uma quantia dez vezes maior para a oposio. Jos Serra, candidato presidencial, chamou Indio da Costa para ser o vice na chapa. A articulao no agradou a todos, mas garantiu doaes milionrias  campanha. Mesmo sendo um banco mdio, o montante do Cruzeiro do Sul foi equivalente ao doado por gigantes do setor, como Ita e Bradesco.

O procurador do BC Issac Ferreira defende a minuciosa apurao dos fatos e a punio dos responsveis

Com acesso poltico a chefes de governos estaduais e gestores de algumas autarquias federais, os diretores do Cruzeiro do Sul firmaram 237 convnios e chegaram a uma carteira de crdito consignado de R$ 500 milhes. rgos pblicos de Alagoas, Par, Gois, Roraima e Tocantins, Estados comandados por governadores do PSDB, permitiram que o banco explorasse at 30% da folha de pagamento de seus servidores. Em 2009, quando o ento senador Herclito Fortes (DEM-PI) ocupava a primeira-secretaria do Senado, o banco firmou convnio para a explorao do crdito consignado dos dez mil servidores.

